31/03/09

Tons de pele


Olá, ilustradores anônimos surfando pela internet. Bem vindos a mais um tutorial feito por mim para vocês. E pros robots do google, que eu sei que entram aqui todo dia.
Vira e mexe, eu vejo uns desenhos pelos deviantarts da vida... Geralmente de personagens (desses, 90% são de mangá). Eu olho e acho o desenho ótimo, mas falta alguma coisa... Olho pras cores da pele e lá está o problema. Nesses desenhos, a pele parece sem vida. Não sem vida como a pele de um zumbi, mas sem vida como se a pele do personagem fosse revestida de tinta de parede. Opaca e sem saturação. Não que eu seja bom em colorir pele, mas quando meus desenhos saiam assim, eu não gostava. Até descobrir essa manha que vou passar hoje. Eu ouso opinar que os autores, na maioria, geralmente não desejam este "efeito tinta de parede", mas não sabem fazer de outro jeito. Eu gosto da pele mais realista, nesses personagens com o traço menos cartoon. Se quiserem tentar, hoje em dia eu faço assim ó:


Esse é o esboço que vou usar para ilustrar a aula. Quando eu esboço, mas sei que vou colorir digitalmente, eu não preencho as sombras com tons escuros. Eu simplesmente marco os contornos das sombras mais duras. Nesse caso, ao redor dos olhos, debaixo do nariz, da boca e da mandíbula, etc.

Se o desenho fosse preto e branco, a pele ia ser isso aqui em cima. Tudo tons de cinza, do preto ao branco. Quanto mais escura a sombra, mais preto. Pronto. Acho que quem tem dificuldade para colorir pele (eu inclusive), é porque é muito acostumado a desenhar só em preto e branco. Aí, na hora de colocar as cores, fazemos assim:

O mesmo raciocínio de "quanto mais sombra mais preto" não funciona tão bem quando colorimos. A pele tem pedaços com cores diferentes, dependendo da luz e dependendo da região do corpo humano. Acima, a pele parece artificial por causa disso: as transições do claro para o escuro são todas iguais. Igual a um objeto pintado com tinta de parede. Para contornar isso, eu faço o seguinte: cubro toda a pele com um tom intermediário chapado.

Se a luz vem da esquerda, as sombras da direita serão mais cinzentas e menos saturadas. As sombras do lado iluminado serão mais contrastantes e "queimadas", com mais saturação. Nesse lado iluminado, as transições da luz para a sombra possuem uma faixa com uma cor bem saturada. Repare no nariz: da luz para a sombra marrom-escuro, a cor assume no meio uma tonalidade laranja saturado. Então, não é só tacar preto. É mudar a cor para algo mais avermelhado e mais saturado.


Eu raramente uso preto total, e raramente uso branco total. Nada contra, inclusive em situações de luz muito dura. Mas na maioria das vezes a pele não fica tão na sombra pra ficar preta, nem reflete tanta luz pra chegar a ficar branca. O segredo, pra mim, é saturar e avermelhar as transições de claro pra escuro, assim como alguns lugares estratégicos (joelhos, pontas de dedos, ponta do nariz, bordas da boca... etc). Nas sombras dos lados menos iluminados: Desaturar mais e tornar menos vermelho (isso significa mais azulado). O resultado, sem ainda aplicar uma textura de pele:

23/03/09

Obama


O famoso poster do Obama venceu o concurso mundial de "Design do Ano". Estava discutindo isso com a minha namorada, esse fim de semana. Que o pôster é bonito, sintético, forte e bem sucedido, ele é. Usar ilustração na campanha de um candidato a presidente dos EUA é uma tacada inovadora, com certeza. Nunca vi nada nem parecido (exceto talvez pelo bonequinho meio mangá cabeçudo da Jô Moraes aqui em Minas, hahaha). O prêmio, segundo os próprios organizadores, se destina ao projeto de design mais inovador e "com olhos para o futuro" dos últimos doze meses. Por mais fã que eu seja das prints do artista responsável, o ilustrador Shepard Fairey, eu não sei não.


Depois de conhecer o vencedor da última edição, o "notebook de 100 dólares", tenho minhas dúvidas. Projetado para a distribuição em massa em países subdesenvolvidos onde as crianças não possuem acesso à internet e aos computadores, esse projeto do ano passado tem tudo! O projeto do computador é bonito, complexo, ultra funcional e exerce uma função social, se preocupando com o presente e com o futuro. E vem com várias inovações no design e na "engenharia" do produto. Será que este ano não havia nenhum projeto como esse?

Não sei. Mas eu esperava mais do projeto ganhador. Acho que o lindíssimo trabalho do Shepard Fairey deveria ter ganhado outro prêmio, de Melhor Ilustração, ou Pôster mais Bem Sucedido. Pois o sucesso nem sempre é uma boa medida de quão revolucionário é o design em questão. A inovação nesse caso ficou mais por conta da utilização de ilustração em campanha, porque o estilo em si, para mim, não é nada inovador. Na verdade é até retrô, e fotos vetorizadas em estilo retrô, por mais belas que sejam, para mim não são mais inovação a essa altura... Muito menos nos últimos doze meses. Lembrando aqui do antigo poster com a ilustração do Tio Sam apontando o dedo, realmente não vejo nenhuma grande revolução.

Detalhe: Está rolando uma briga na justiça entre o Shepard Fairey e o fotógrafo da Associated Press que capturou a imagem. Shepard Fairey não quer pagar nem 1 centavo de direito autoral ao fotógrafo, o que eu acho uma tremenda malandragem.

Encontro da lista: UAI


Sábado passado, fui ao encontro organizado pelo pessoal da lista da UAI: União dos Amigos Ilustradores. Eu participo desta lista de emails, mas na verdade fico calado no meu canto só lendo... E não me orgulho disso! Acho que eu (e a maioria dos ilustradores de Minas) devia participar mais das atividades e ser mais presente, na lista e nos encontros. Porque aqui em Belo Horizonte a nossa classe é muito dispersa. E principalmente porque é bom conhecer gente legal com trabalhos mais legais ainda, e conversar sobre a profissão com alguém que conhece e vê por outros ângulos.

Acima, eu e o Marcelo Queiroz, sujeito gente fina e um pintor e quadrinista impecável! Abaixo, Marcelo e Iriam Gomes Starling, ilustradora científica e participante mais ativa da lista.

Dessa vez eu não pude ficar muito, tinha um trabalho pra fazer naquele dia. Mas espero ir sempre, levar mais coisas para mostrar e conhecer o trabalho de todo mundo da lista. Quem quiser participar, o endereço da lista é:

uniaodosamigosilustradores@yahoogrupos.com.br .

A reunião foi no Palácio das Artes, mas parece que vão resolver um novo local com mais (e maiores, espero) mesas para acomodar melhor o pessoal. Essas pastonas A3 são gigantes pras mesinhas do café. Abaixo, um original em óleo do Marcelo ao lado do meu livro da Alice:

19/03/09

Hiper-realismo fase 2


3, 2, 1,...
Estamos de volta com o segundo tempo do negócio do hiper realismo. Tava olhando aqui o último post, e esqueci de falar: eu fiz uma lipo no flanco direito do morango, porque ele era muito assimétrico. Essas coisas você vai corrigindo... Eu não corrigi coisas demais pra não ficar muito artificial, mas aí é decisão sua. Agora, fazendo as sementes... Fiz o mesmo esquema de pegar as cores originais da foto e aplicá-las em manchas com o brush.


Depois saturei e dei uma amaciada com um brush macio e com pouca opacidade, e usei a ferramenta "smudge" para deixar a textura mais uniforme e lisa. Fiz alguns modelos de caroços por região, e fui simplesmente duplicando eles. Às vezes eu dava "free transform" neles pra alterar o tamanho, e às vezes mudava o hue mais pra verde. Às vezes queimava com o "burn". Circulei alguns iguais pra vocês verem que eu sou malandrão e dupliquei mesmo!


Duplicando assim você acaba rápido com os caroços. E começa a fazer os cabelinhos. Sim, morangos tem cabelos, e eu só descobri depois de tirar a foto. Fiz eles com as cores mais iluminadas do pedaço do morango onde eles se encontram. Com o tablet e um brush fininho.


E agora as folhas... Na foto (vide primeiro post abaixo) dá pra ver que as folhas ficaram meio fora de foco. Elas também estavam bem feias nesse morango. Pesquisei algumas imagens melhores na internet, porque o morango já havia sido comido quando cheguei nessa parte. Resolvi fazer as folhas dele serrilhadas, como a maioria das imagens que achei:


Fiz uma camada verde chapado com a silhueta da folha, e numa camada por cima desenhei as veias que teriam saído na foto se eu tivesse tirado ela melhor. Depois saí usando a ferramenta "burn" em ambas para fazer as sombras equivalentes às da foto. Usava o burn regulado para "midtones" para sombras mais sutis. Nas mais fortes (dentro das sutis) usava o burn regulado para "highlights"


Repeti o processo em todas as folhas. Algumas eu deixei com a forma diferente, outras eu tirei.
Depois fiz os cabelinhos do mesmo jeito que fiz no morango:


Aí ficou pronto e eu fui dormir!

16/03/09

Hiper-realismo


Escreve é assim mesmo?
Maldita reforma ortográfica... Seja como for, hoje eu vou postar um tutorial de hiper-realismo.
Pra que serve o hiper-realismo? Embalagens de Iogurte! E de sucos e biscoitos também. Para criar qualquer coisa que pareça uma foto, na verdade. Mas porque então eles simplesmente não batem uma foto?
Eles batem! Geralmente essas ilustrações hiper-realistas são baseadas em fotos, ou contém pedaços de fotos (texturas, etc) na sua composição. Mas numa ilustração hiper-realista, você controla coisas difíceis de se obter numa foto "pura". Você pode colocar as pintinhas de uma banana onde quiser, as gotas espirrando de um splash de chocolate indo convincentemente para onde quiser. Uma melancia com os caroços uniformemente distribuídos, alinhadinhos, etc.
Para mim, se alguém pega uma foto de uma fruta e começa, no photoshop, a apagar manchas e machucados demais, colocar um reflexo aqui e ali, desamarrotar uma folha.... Pra mim isso já virou uma ilustração hiper-realista!

Vamos começar então. Para esse morango, eu bati uma foto simples, com uma luz mais forte da esquerda e uma mais fraca da direita. As luzes laterais servem para destacar o morango contra o fundo preto (eu já tinha planejado na minha cabeça que a ilustração final ficaria num fundo preto). Se você reparar, é quase um jogo de sete erros, existem várias modificações. Portanto não se preocupe em tirar uma foto perfeita em cor, textura e detalhes, preocupe-se mais com a luz adequada e no volume da fruta.

O meu método é o seguinte: abro uma nova camada vazia no PS, sobre a foto crua. Com a ferramenta brush, seguro o "alt" (conta-gotas), saio sampleando cores das partes com as luzes mais brilhantes, solto o "alt" e pinto com essas mesmas cores sobre as áreas correspondentes. Um tablet com muitos níveis de pressão ajuda muito, se não for essencial. Depois, (com o brush selecionado) vou menu "modo" e coloco na opção "behind". Aí começo a pintar em volta das luzes com os tons cada vez mais escuros, apanhados com o conta gotas. O "behind" seve para você não se preocupar em atropelar as luzes com as novas pinceladas. Aconselho a fazer tudo toscamente, como num esboço, sem se preocupar em fechar cada buraquinho e tal. Acima está o resultado disso sobre a foto. Abaixo, eu pus sobre um fundo totalmente preto para mostrar as imperfeições, mas ali eu já tinha tampado boa parte dos buracos. Faça tudo mais tosco mesmo, não perca tempo nessa parte.

Quando terminar, vai ficar parecendo uma pintura impressionista. Aí, feche todos os buracos com o brush no "behind", com um vermelho neutro daquela região. Quando falo buracos, não me refiro aos espaços que vão ter os caroços. Esses você pode deixar abertos. Dei uma ajustada na saturação e nas cores e contraste com o Hue/saturation e tal. Quando terminar, é hora de "amenizar" as pinceladas:

Comecei pelos reflexos, mas a ordem não importa aqui. Vá tornando as coisas mais homogêneas, deixando os degradês mais contínuos e fazendo o morango ficar mais liso. Eu uso a mesma técnica de alternar brush com conta gotas aqui. Mas o brush tem pouca opacidade (por volta de 20), e o hardness = zero, para ficar bem macio. Às vezes uso aquele smudge (borrar). Antes de fazer isso tudo, seguro ctrl e clico na layer, para selecioná-la. Assim não dou piceladas fora da área que já desenhei. Na próxima imagem está o morango com mais da metade tratada, e ao lado com o processo completo.

De vez em quando eu dou uma olhada na foto, pra conferir se aquela parte está parecida mesmo.
Próxima fase: carocinhos! Amanhã posto o resto!

12/03/09

Nestor Jr.


Eu pensei em criar esse blog para falar apenas dos meus trabalhos, mas acabei decidindo que vou postar sobre ilustração em geral. Há dias nos quais você não quer falar de você, e sim dos outros! E assim eu poupo vocês de coisas como "Hoje eu fiquei redesenhando em versões "sustentáveis" todos os mascotes que aparecem nos impressos de circulação interna de uma empresa que produz tapetes para banheiros".

E é bom, porque assim tenho a oportunidaade de contar para vocês que existem, nesse Brasil, várias criaturas como o Nestor, que mais parece uma impressora humana e todo dia mostra uma cassetada de ilustrações impressionantes. Achei esse cara do nada no flickr (ou ele me achou? não me lembro.) E toda hora aparecia uma nova obra prima dele nos "recent uploads" dos contatos. Não tinha uma que eu não achasse extraordinária. Fala sério, olhem isso:


Poisé...Poisé... Eu queria ter desenhado uma tela tão legal assim! E ele não faz só telas. Essa Kombi deve ter quadruplicado de preço:


Vocês podem ver mais coisas do Nestor Jr. no flickr dele. Essas aqui são fotos de painéis grandões que ele postou no flickr dele há um tempo atrás:







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