EDITORIAL ILLUSTRATION / BOOK DESIGN / TIPOGRAPHY
by Rafael Resende

AN UNIVERSITY ASSIGNMENT

THAT BECAME A PUBLISHED BOOK
THE PROJECT

This was my degree-completion assignment, on the last year of my Graphic Design course at UEMG. It was one of those rare moments where you get to be your own boss, on every aspect of a project . I chose to build a book from the ground up –  cover, logo, layout and illustrations. I even ended up translating the original text (more on that later). I picked up Alice in Wonderland as the story I was going to build on. My choice was a bit uninformed, based solely on a admiration I had for the characters and the general mood of this tale. But boy, is there more to it than just characters and mood! Turns out I was unaware (as almost everyone is, nowadays) of the huge amount of hidden puns, jokes and meanings of the original text, mostly because they only made sense back in the Victorian days. Those hidden meanings became the core of the whole project.

O PROJETO

Este foi meu projeto de conclusão de curso, no último ano de minha formação como desidgner gráfico na UEMG. Esse tipo de trabalho é um dos raros momentos onde você pode ser seu próprio chefe, em todos os aspectos de um projeto. Resolvi construir um livro do zero – capa, logo, layout e ilustrações. Acabei até traduzindo o texto (explico adiante). Escolhi Alice no País das Maravilhas como a história que eu iria trabalhar. Minha escolha foi um bocado desinformada, baseada apenas em uma admiração que tinha pelos personagens e pelo clima da história. Mas é impressionante como essa história é muito mais do que personagens e clima! Eu ignorava (como quase todo mundo, hoje em dia) a quantidade de trocadilhos, piadas e significados do texto original, já que tudo isso só fazia sentido na Era Vitoriana. Estes significados ocultos se tornaram o núcleo do meu projeto.

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BEHIND ALICE
 A little research was enough to blow my mind about so many facts regarding the story. It induced me to research further, which in turn led to more mind-blowing facts – and then I was going down a rabbit hole myself.
 
The character of Alice was based on a real girl – Alice Liddell, a child for whom the author had a very special friendship. In fact, he wrote the book as a present for her. It was initially called “Alice’s Adventures Underground”, and you can find images of its manuscript online. I based the aesthetics of some of my pages and dropcaps on his manuscript. There are also many photographs of the actual Alice, who wasn’t blond, nor had a light mien at all, unlike Disney’s. My illustrations of Alice were based on her real looks.
POR TRÁS DE ALICE
Um pouco de pesquisa é o suficiente surpreender-se com esta história. Isso faz com que você queira pesquisar ainda mais, que por sua vez trás mais surpresas – e aí você já estará caindo pela toca do coelho.
A personagem Alice foi baseada em uma menina real – Alice Liddell, uma criança por quem o autor nutria uma amizade muito especial. Inclusive, o livro foi escrito como um presente para ela. Inicialmente se chamava “Alice’s Adventures Underground”, e é possível encontrar imagens de seu manuscrito online. Baseei a estética de algumas de minhas páginas e capitulares neste manuscrito. Também há muitas fotos da Alice de verdade, que não era loira, nem tinha um semblante leve, contrastando com a versão Disney. Minhas ilustrações da Alice foram baseadas em sua aparência real.

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And she’s not the only real person disguised as a character. E.g. the Dodo bird, who represents the author himself. Carroll’s real name was Dogson. And since he stuttered frequently, it often came out of his own mouth as “Do-Dogson”, thus, the “Dodo”. In my version, the Dodo Bird has Carroll’s face.
 
The story is full of such easter-eggs, and I chose to work in a similar way, providing image easter-eggs for the text easter-eggs. Something like meta-easter-eggs, which suits just fine, since Carroll was a mathematician with strong fondness to meta-logic and symmetry. To further identify him as the Dodo, I drew it’s shadow with a human shape to it, and he wears the number 42 on his neck (that was Carroll’s favorite number).
E ela não é a única pessoa real disfarçada de personagem. Por exemplo o Dodô, que representa o próprio autor. O verdadeiro nome de Carroll era Dogson. E como ele era um pouco gago, frequentemente proferia “Do-Dogson”, e daí o Dodô. Em minha versão, o Dodô tem o rosto de Carroll.
A história é cheia desses easter-eggs, e assim, eu segui esta linha, provendo easter-eggs visuais para os easter-eggs do texto. Meio que meta-easter-eggs, o que vem a calhar, já que Carroll era um matemático de fortes laços com a  meta-lógica e simetria. Para identificá-lo ainda mais com o Dodô, desenhei a sombra deste com uma forma humana. E ele usa o número 42 em seu pescoço (era o número favorito de Carroll).

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SOME MORE META-EASTER-EGGS
 The Cheshire Cat’s name comes from the Cheshire county, famous for it’s cheese. It is said the cheese was moulded in a grinning cat’s shape, back on the Victorian days. People would cut pieces out of the cheese so that the cat would slowly disappear, and tha’s why the character has the habit of disappearing in chunks. My Cheshire Cat has its insides made of cheese to represent that.
 
The Mad Hatter also has it’s name based on a Victorian tradition. It was a common expression to say that someone was “mad as a hatter”. This was because hatters used a lot of mercury when making felt hats, and many became mercury-poisoned, a condittion which often brought madness upon it’s bearer.
MAIS ALGUNS META-EASTER-EGGS:
O nome do Gato de Cheshire vem do condado de Cheshire, um lugar famoso por seus queijos. Dizem que estes eram moldados em forma de gatos sorridentes, durante a era Vitoriana. Pessoas cortavam fora pedaços de queijo, de forma que o gato ia desaparecendo devagar, e é por isso que o personagem costuma desaparecer em pedaços. Meu gato de Cheshire tem o interior feito de queijo por isso.
 
O Chapeleiro louco também tem seu nome originado em tradições vitorianas. Era comum dizer que alguém estava “louco como um chapeleiro”. Isso porque chapeleiros usavam muito mercúrio ao fazer chapéus de feltro, e muitos sofreram envenenamento por mercúrio, uma condição conhecida por enlouquecer em seus afligidos.

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Likewise, the Mock Turtle also owns it’s name to an expression from the past. In the Victorian days, eating turtle soup was a common habit of the most wealthy layers of society. It was an expensive dish. Those who couldn’t afford it got by with “mock turtle soup”, a cheaper version, made with often-discarded parts of a catle calf, like the head and the hooves. Therefore, the illustrated creature has a calf’s head, and soup spoon legs.

Da mesma forma, a Tartaruga Falsa deve seu nome a uma expressão do passado. Na era vitoriana, comer sopa de tartaruga era um hábito comum na alta sociedade. Era um prato caro. Quem não podia custeá-lo, se virava com “sopa de tartaruga falsa”, uma versão mais barata, feita com partes normalmente descartadas de um novilho, como cabeça e cascos. Daí, a criatura ilustrada possui cabeça de novilho, e pernas de colher de sopa.

TIPOGRAPHY AND AESTHETICS

A Victorian Times Inspired Layout
Aesthethics

The whole aesthethics was based on Victorian Era visuals. Those times are known for the indiscriminate use of ornaments. Objects, architecture and interiors often featured mixed and widely different styles . Trying to synthesize it, I saw the following constants: lots of geometric lines,  lots of organic lines, and in both cases, lots of parallel lines. Illustrations also had lots of parallel lines, i.e. hatching and cross-hatching. This is the reason why I chose to draw Alice using hatching: she is a Victorian character, her essence is out of today’s time. Thus, she appears as an old, grimy drawing amidst an explosion of paint, watercolor, vectors and digital colors.

Estética

Toda a estética foi baseada no visual da era vitoriana. Foi uma época conhecida pelo uso indiscriminado de ornamentos. Objetos, arquitetura e os interiores eram misturas de estilos muito diversos. Tentando sintetizar, encontrei as seguintes constantes: muitas linhas geométricas, muitas linhas orgânicas, e em ambos os casos, muitas linhas paralelas. As ilustrações da época também mostravam linhas paralelas, sob a forma de hachuras. Representei a Alice com hachuras por isso: ela é um personagem de contexto vitoriano, sua essência está longe dos dias de hoje. Ela aparece como um desenho velho, encardido, em meio a uma esplosão de tintas, aquarelas, vetores e cores digitais.

DROPCAPS

Dropcaps

The curvy and straight parallel lines – my way of representing the Victorian context – are all around in the book. There are always masses of flowing, colorful paralell lines. Even on the dropcaps I created to open each chapter, as seen above.

Capitulares

As linhas paralelas, retas ou curvas – minha forma de representar o contexto vitoriano oculto- estão por todo o livro. Há sempre massas coloridas de linhas sinuosas e paralelas. Inclusive nas capitulares, que desenvolvi para abrir cada capítulo, que você vê acima.

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The other set of dropcaps shown above is a tribute to Carroll’s original manuscript. I mixed blue and red blackletter typefaces with hand drawn ornaments to reference his own way of decorating text.

Este outro conjunto de capitulares acima é uma homenagem ao manuscrito original de Carroll. Misturei fontes blackleter azuis e vermelhas com ornamentos desenhados à mão, fazendo referência ao modo dele de decorar o texto.

À esquerda, páginas do manuscrito (em inglês, letra cursiva) e páginas do meu livro, inspiradas nele.

To the left:  pages from the manuscript (in English, cursive writing) and a few from my book, inspired on it.

Why is a raven like a writing desk?

Below is a fusion of several illustrations I did for the book. One can see the far-fetched style of Victorian furniture on the body of the Writing-desk-Crow, as well as the profusion of curves, which were about to become a staple in the forthcoming movement of Art Nouveau.

Por que o corvo parece uma escrivaninha?

Abaixo, uma junção de várias das minhas ilustrações para o livro. Vale notar o estilo rebuscado da mobília vitoriana presente no corpo do corvo-escrivaninha, e a profusão de curvas, que viriam a se solidificar no Art-Nouveau, movimento que estava para nascer nesta época.

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THE AMBIGRAM

The idea of an ambigram logo came from Lewis Carroll’s personality itself. Aside from being an author, was also a mathematician and inventor. Carroll apparently had a fascination for all things symetrical – despite the fact that his own face was not an example of symetry. His tales are filled with symetrical elements, e.g the Tweedledum e Tweedledee twins, or the fact that Alice goes through a mirror on the second tale, finding a kind of reverse-world there.

O AMBIGRAMA

A idéia de fazer uma marca de ambigrama para o livro veio da personalidade de Lewis Carroll, que era, além de escritor, matemático e inventor. Lewis tinha um aparente fascínio por tudo que é simétrico – ainda que seu próprio rosto não fosse um exemplo de simetria. Suas histórias estão permeadas de elementos “simétricos”, por exemplo, os gêmeos Tweedledum e Tweedledee, ou mesmo o fato de Alice atravessar um espelho, em seu segundo conto, e encontrar lá um mundo às avessas.

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Above, on the left: you’ll never be able to tell which side is up! On the right: another tribute to Carroll’s playful nature. A small flipbook animation goes through the entire book. The hearts symbol appears for the first time exactly when the Queen’s chapter starts.

Acima, à esquerda: você nunca saberá qual lado está para cima! À direita: um tributo à natureza lúdica de Carroll. Um flipbook acompanha todo o conto. O símblo de copas surge pela primeira vez exatamente quando o capítulo da rainha começa.

LAST WORDS

A NEW BOOK HATCHES (OR RATHER CROSS-HATCHES)
EPILOGUE

This project’s first incarnation was born as a prototype, printed in 2007, to be shown at the degree-completion assignment presentation. It won me a score of 100. Later on, working at an advertising agency in 2010, I conquered the patronage of my employer, who funded this book’s publishing, a simple but cool edition, on a small quantity. I still look forward to publish newer and better editions of it, though!

EPÍLOGO

A primeira encarnação deste projeto nasceu em 2007, um protótipo que imprimí para a apresentação de conclusão de curso. Ele me ganhou uma nota 100. Mais tarde, trabalhando em uma agência de publicidade em 2010, conquistei o patrocínio de meu empregador, que financiou a publicação de uma edição simples e bonita, em pequena tiragem. Porém, ainda adoraria a possibilidade de publicar mais e melhores edições!

Above, a bit of making-of: Roughs were pencil-made, inking was technical pen and ballpoint, colors were watercolor and digital! Below: how the book turned out.

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Entrevista sobre o livro

INTERVIEW ABOUT THE BOOK

concedida à Rede Minas, circa 2010
THANKS FOR READING. AND THANKS TO…

My wife, (girlfriend at that time!) for helping me translate the text, and my mother and aunt, for letting me use their house space for book storage. Also, I thank the design teacher who was my project advisor at the time, Thiago Colares, and 2Pontos Widebusiness for the first edition sponsorship.

OBRIGADO POR LER. E OBRIGADO…

À minha esposa (na época, namorada!) pela ajuda traduzindo o texto, e à minha mãe e a minha tia, por deixarem eu usar espaço em sua casa para guardar os livros. Agradeço ainda ao professor de design que orientou meu projeto, Thiago Colares, e à 2Pontos Widebusiness por patrocinar a primeira edição.

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